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Legendas: David Stanley, hoje;
Elvis, com David, antes de entrar no avião Lisa Marie (28 de Agosto
de 1976); e Elvis com David, em 1971.
Entrevistadora:
Madeleine Wilson
Depois de esclarecer que as canções de Elvis
favoritas de David são Jailhouse Rock e Memories, que não gostava de
ouvir Elvis a cantar Hey Jude e que acha que os melhores anos de
Elvis foram entre 1969 e 1972, a entrevista prossegue do seguinte
modo:
Você tem dito que um dos problemas com Elvis foi que
acima de tudo ele não tinha responsabilidade, não tinha a quem dar
satisfações. Acha que ele tinha consciência disso e, em caso
afirmativo, que tipo de pessoa pensa que ele aceitaria ter a quem
dar satisfações?
Acho que Elvis era esta pessoa protótipo; foi a
primeira estrela de rock. Não houve ninguém antes dele. Do ponto de
vista profissional era difícil para ele comunicar com alguém que
tivesse tido um sucesso semelhante. Tinha havido Frank Sinatra, Dean
Martin, mas este miúdo jovem, Elvis, saiu do típico padrão. Não
haviam conselhos sólidos que se pudessem dar sobre como ser uma
estrela rock. Quanto a ter uma pessoa a quem dar satisfações durante
a sua vida, devido ao facto de ser uma super estrela, não só sobre o
palco, mas também como pessoa, ele era uma presença tão forte que
era difícil dizer-lhe o que tinha de fazer. Eu olhava para ele e
fazia-lhe uma sugestão. Agora tenho 47 anos de idade e a forma como
estou a responder a estas perguntas seria completamente diferente se
fosse naquele tempo. Na altura eu tinha 19/20 anos e ele
recordava-me sempre. “Quando tinha a tua idade eu era milionário.”
Ele era difícil de abordar por causa do seu sucesso e da sua fama.
Sentia-se muito humilde e grato por Deus lhe ter dado aqueles dons
incríveis da música, do carisma e da presença, mas não haviam muitas
pessoas que se pudessem identificar com ele, de chegar àquele nível
e saber o que era ser um ícone. Independentemente de se ser bom ou
não, as pessoas amam esse ícone na mesma. Elvis era amado. Todos nós
temos coisas na vida das quais não nos orgulhamos. Todos nós já nos
sentámos e dissemos, “Como é que alguém pode realmente gostar de
mim?”, incluindo Elvis.
As
pessoas amavam-no mesmo. Mas ele não conseguia compreender isso.
Então era difícil falar sobre esse tipo de coisa,
permitir que alguém o aconselhasse. Na minha opinião.
Então você não acha que ele procurava ter qualquer
tipo de responsabilidade?
Elvis costumava falar com pregadores. Encontrava-se
com Rex Humbard e Oral Roberts, pessoas assim. Elvis tinha uma fé
imensa que lhe foi passada pela sua mãe. Mas era do tipo, “Quem é
que pode entender de onde venho?”. Isso faz algum sentido? É como se
eu fizesse esta entrevista num nível mais baixo. Podemos falar sobre
Elvis, mas quem é que pode realmente entender o que era, estar
naquele turbilhão com Elvis Presley?
Deus pode.
Claro.
Quando digo responsabilidade, quero dizer que
realmente ninguém lhe podia dizer o que fazer. Ele tinha as suas
próprias ideias. Acho que a consciência de Elvis acabou por lhe
pregar uma partida. O mundo amava-o tanto, mas havia coisas nele que
ele mesmo não gostava assim tanto. Algumas pessoas chamam-lhe
pecado, outras chamam-lhe convicção. Às vezes damos por nós próprios
a afastarmo-nos das coisas que sabemos que é suposto fazermos e não
fazemos. Acho que foi a combinação de tudo isso que levou Elvis a
ultrapassar o limite, a cair. Mais ainda, Elvis tinha de se sentar e
ser Elvis. As pessoas perguntam o que era mais difícil na vida de
Elvis.
Eu
acho que era ser Elvis Presley. Ele não podia ser uma pessoa.
Não havia ali ninguém a quem dar satisfações. Ele não
podia comunicar os seus sentimentos porque as pessoas esperam que
esta super estrela tivesse uma super vida e andasse sempre super
feliz. E isso acabou por ser demais para ele. 29 anos a estar no
topo, para onde se vai depois de se ter sido Elvis?
Dizem que estar no topo é difícil.
E é também solitário.
Outro ponto que você já sublinhou é que Elvis tinha
medo de não dar aos seus fãs o que eles queriam. Acha que foi este
medo que evitou que ele desse concertos só de música gospel?
Não. Elvis cantava música gospel, mas que eu saiba
isso nem sequer nunca foi discutido. Nunca ouvi falar de se fazer um
concerto de Elvis só de gospel. Teria sido fantástico. Ele adorava
gospel, era capaz de se sentar uma noite inteira a cantar com JD e
os Stamps e os Imperials.
E
também ia a convenções de gospel.
Se ele ainda estivesse vivo, penso que teria feito
algo do género. Elvis sabia quais eram as suas origens. Sempre se
sentiu humilde e muito grato pelos seus dons. Ele disse ao meu irmão
Ricky, “Todos nós temos uma vocação, e a minha vocação é ser cantor
de gospel.” Ele disse isso ao meu irmão, lembro-me bem. E Elvis
disse, “E eu pura e simplesmente deixei passar a minha vocação. O
mundo não me deixa ser o que Deus me destinou ser.”
Isso leva à minha questão seguinte. Elvis fez esta
pergunta muitas vezes, porque motivo Deus lhe deu aquele dom de ter
uma voz maravilhosa e um magnetismo pessoal. Reflectindo sobre este
assunto, tem alguma resposta para esta pergunta?
Vamos falar da sua música gospel. Olhe para a
inspiração da música gospel, olhe para os prémios Grammy. As
mensagens de gospel eram ilustradas na estrutura daquela música.
Elvis nunca colocou uma mensagem numa canção que fosse destrutiva. E
era por isso que ele não gostava dos Beatles. Ele não gostava quando
alguém falava de drogas ou fosse contra o sistema. Ou que deitasse
abaixo a família. Era muito conservador nas suas perspectivas e acho
que a sua vocação foi preenchida porque ele fez mesmo aquilo para o
que Deus o destinou, todos aqueles discos ainda andam por aí e
quando se fala de Elvis, toda a gente fala do gospel, das raízes da
sua vida. Eu acho que ele preencheu a sua vocação e ainda mais.
Legendas: Vernon Presley, com
Elvis e a sua segunda esposa, Dee Stanley; os rapazes Stanley com
Lisa Marie Presley, quando ela nasceu.
Alguma vez falou sobre assuntos espirituais e
cristãos com Elvis e, em caso afirmativo, o que acha que era o que
mais o interessava sobre o Gospel? E sobre o que mais ele se
interrogava?
Elvis leu imensos livros. A Vida Impessoal,
O Manto de Turim, livros sem fim, mas acabava sempre por
recorrer à Bíblia. Durante os 26 anos que se seguiram à sua morte,
também eu tenho feito algumas viagens pessoais. Durante todos os
altos e baixos da minha vida, a coisa que permanece mais sólida é a
minha fé em Deus e o meu amor por Cristo. Não importa se estou bem
ou mal, se sou bom ou mau rapaz, se estou cheio de pecado ou de
graça, ainda me concentro sobre o meu relacionamento com Deus, o
criador e Cristo, o Salvador. Isso também lhe foi incutido a ele.
Elvis teve adversidades sobre adversidades sobre adversidades. Eu
sentava-me na sua cama e via-o a abrir aquela Bíblia e a chorar,
“Deus, dá-me forças!” Um dia estava a tomar uma mão-cheia de
comprimidos, no outro estava a rezar para pedir perdão. Todos nós
somos assim. Uma coisa que as pessoas precisam de entender acerca de
Elvis é que ninguém, nem mesmo aquele rei, é perfeito.
Só houve um rei e Elvis reconhecia isso. A canção Why
Me Lord resume isso muito bem.
“Porque sou esta estrela tão grande? Deus, não sou
bom, sou capaz de me auto-destruir, de me rebelar e todo o tipo de
coisas que não recaem na estrutura das coisas que queres que eu
faça. Apesar de tudo isto, porque é que me escolheste a mim?” Essa
era a vida de Elvis Presley. Ele era um Rei Salomão moderno. Se
Elvis tivesse vivido nos tempos bíblicos, provavelmente teriam
escrito um livro sobre ele porque ele foi um rei moderno. Consegue
imaginar-se a viver com isso? É quase impossível.
Um fardo pesado.
Um
fardo muito pesado.
Estou aqui a falar consigo em Liverpool, 26 anos
depois de Elvis ter morrido. Que me diz disto? O impacto que este
homem teve sobre a sociedade que, 26 anos depois, ainda estamos a
falar dele e sobre a sua fé. Sobre o que ele fez e como o fez. Ele
foi um rei moderno. Se alguém perguntar, “O que matou Elvis?” Foi
ser um rei moderno. Esqueçam Elvis, imaginem-se apenas a ser aquela
pessoa. É um caminho duro! Olhem para todos os reis, as adversidades
do rei David, rei Salomão. Elvis não foi diferente.
É bem conhecido que Elvis tinha um enorme sentido de
humor e que o Elvis sorumbático muitas vezes ilustrado era de longe
apagado pelo Elvis divertido e amoroso. Qual é a sua recordação
favorita de se divertir com Elvis?
A maior diversão que tinha era quando Elvis estava a
brincar; quer fosse guerras de fogos-de-artifício, carrinhos de
corrida ou futebol. As pessoas falam da pobre e triste estrela de
rock, Elvis Presley.
Não
foi assim tão mau. Elvis divertia-se. Tínhamos férias divertidas,
Natais maravilhosos.
E pregávamos partidas. Elvis dizia, “Se deixar de ser
divertido, desiste, se não te conseguires rir, vai-te embora para
casa.”
E
Vernon também era assim. Elvis herdou essa faceta do pai.
A maior diversão que tive com Elvis foi quando estava
com ele bem disposto. Quando ele estava mal disposto, não era
divertido, mas todos nós ficamos mal dispostos de vez em quando.
E quando Elvis brincava, brincava à bruta.
Era um miúdo crescido. Olhávamos para aquele homem de
39/40 anos a portar-se com um miúdo de 12. Os meus filhos olham para
mim e dizem, “Pai, portas-te como um miúdo.” E eu digo, “Obrigado.”
Quero manter isso, a minha juventude, a minha alegria e a minha
felicidade. No final da vida de Elvis, já não era nada divertido. E
quando pensamos no que ele costumava dizer, “Quando deixar de ser
divertido, desiste.” Faz-nos pensar que ele se limitou a desistir.
Como crente, Elvis sabia que a vida era efémera. E que era tempo de
ir embora, para casa. Agora está a divertir-se mais do que qualquer
um de nós!
Você tem dito que Elvis foi tanto uma figura fraterna
para si, como também paterna, mas que a figura paternal foi mais
forte. Isso foi porque você perdeu contacto com o seu próprio pai e
continuou a ter os seus irmãos por perto?
Boa
avaliação. Foi exactamente isso.
O meu pai foi-me tirado da vida. Vernon amava-nos,
mas o seu filho era Elvis. Sempre tive um bom relacionamento com
Vernon, o meu padrasto. Ele criou-me e deu-me um tecto, levou-me à
escola. Fez tudo o que um pai deve fazer. Porque perdi a minha
identidade, crescer nesta vida surrealista e protegida com Elvis, a
única coisa de que me conseguia aperceber era de Billy, Ricky e
Elvis. Billy e Ricky eram da minha idade, eram os meus verdadeiros
irmãos, Elvis era a figura paternal. Era ele que me dava uma palmada
nas costas e eu sabia que tudo ia ficar bem. Quando alguém se metia
com a família dele, ele ia logo para a frente da batalha para a
defender. Estava sempre ali, para nos proteger. E era o mesmo comigo
em relação a ele, ninguém podia fazer-lhe mal comigo a ver. Ninguém
o podia magoar, tocar-lhe, bater-lhe ou fazer algo de mau quando eu
estava por perto. Ele não era o meu pai biológico, mas tratava Elvis
por pai. Isso não quer dizer que eu vá deixar crescer patilhas e vá
andar com uma bengala. Mas ele foi uma pessoa que influenciou muito
a minha vida, que me ensinou o que era bom e o que era mau. E tem-me
levado muitos anos a absorver tudo isso. Ele continuará sempre a ser
a força dominante na minha vida, a minha figura paternal de Elvis
Presley, e o meu pai verdadeiro. Tal como Elvis me dizia, “Ama
sempre o teu Pai, sente-te orgulhoso da sua herança como combatente
veterano, uma pessoa que esteve disposta a dar a sua vida pelo seu
país.” O maior elogio que Elvis me deu foi quando disse, “És tal e
qual o teu pai.” E sou bastante parecido com o meu pai biológico,
mas Elvis era o Papá e eu amava-o.
É bastante claro pelas coisas que já escreveu que
realmente sente saudades de Elvis. Depois de todos estes anos ainda
sente a dor. Como cristão, acha que será capaz de chorar e, tal como
a Bíblia diz, será que o seu luto se converterá em dança enquanto
estiver a viver nesta terra?
Eu não ando realmente enlutado, porque sou um crente.
Eu voltarei a ver Elvis. Há alturas em que fico triste, como é
natural. Provavelmente esta noite quando for para o meu quarto e me
deitar, tudo isto começará a crescer dentro de mim.
Sabe? As pessoas não deixam Elvis morrer.
Nunca terei uma sensação de término porque Elvis
estará sempre presente. Sinto saudades dele, mas não desejo que ele
ainda cá estivesse. Isso seria egoísta e acho que Elvis está no céu,
a afinar o coro, ou lá o que quer que seja que está a fazer.
A divertir-se.
Sim, ou o que quer que seja de bom e maravilhoso que
Deus nos promete. Fico triste. É como Elvis disse, “Não é que as
pessoas não gostem de mim, apenas sou mal entendido.” Não importa
quantas entrevistas eu dê e com quantas pessoas eu fale, as pessoas
nunca compreendem a simplicidade deste homem muito humilde e temente
a Deus. Ele era muito simples. Ele era capaz de fazer esta
entrevista consigo; achá-la-ia a si muito desarmante e carinhosa e
bastante qualificada nas perguntas que faz. Apreciaria o processo e
você acharia que este ícone está para além de qualquer recriminação,
mas ele falava com qualquer pessoa. E quando penso nisso e em como
ele se preocupava com as pessoas e o tipo de pessoa que foi, sinto
saudades dele, mas do que sinto mais falta é das pessoas não se
aperceberem de nada disso.
De
quem ele realmente era.
Você quer esclarecer as coisas para que as pessoas o
entendam?
Sim, exactamente. Quando pensarem em Elvis, não sejam
tão complexos.
Ele
era apenas um de nós. Só que ganhou imenso dinheiro! E tinha um dom
tremendo.
Se pudesse falar com Elvis agora, o
que lhe diria?
Meu Deus. Se tenho um desejo na vida,
seria poder comunicar com Elvis com a idade que tenho agora. Todas
as adversidades pelas quais tenho passado, desde que ele morreu, e
poder comunicar com ele, de homem para homem e não de miúdo para
estrela do rock ou de miúdo para homem, mas de homem para homem.
Provavelmente diria a Elvis que o amo, que é amado e como lhe
agradeço que ele tenha aceite este miúdo de 4 anos, quando nem
sequer tinha de o fazer. Dee (a mãe de David) entrou na sua vida
quando a sua mãe tinha morrido apenas há um ano e meio. E isso é
duro. Ele gostava da minha mãe e amava-nos a nós, três rapazes.
Quando entrei em Graceland, ele abraçou-me e deu-me as boas vindas e
deu-me todos aqueles anos. As pessoas dizem tantas coisas. "David,
porque não o salvaste, porque não fizeste istou ou aquilo?" Mas até
vós mesmos poderem estar nessa situação, não critiquem nem abusem
até poderem estar na pele da pessoa que interrogam. O meu legado
fala por si mesmo. As pessoas podem dizer o que querem, mas Elvis
confiava em mim e eu confiava nele. Perdi um amigo e um irmão
naquele dia. Se pudesse dizer algo provavelmente diria "Obrigado". E
lamento uma data de outras coisas porque é difícil ser o guardião de
um legado. Não pedi esta posição, fui atirado para dentro dela. Fiz
o melhor que pude ao longo do caminho. A parte mais difícil sobre a
morte é as pessoas que ficam para trás.
Mas Deus dá-lhe a força.
Certo.
E um dia voltará a vê-lo.
Sim, essa é a boa parte da história.
Vai alguma vez regressar às
pregações?
Passei do rock and roll para o
evangelismo, caí, desmanchei-me e queimei-me. Nunca lidei realmente
com as ideologias negativas que foram instigadas na minha vida como
parte do mundo do rock and roll. Mas a minha vida gira em torno da
graça de Deus. Duvido que alguma vez volte (a pregar). Mas vou dizer
isto. Não sinto vergonha da palavra de Cristo. E para onde quer que
vá como orador, um orador que coopera, faço questão de dizer sempre
que tenho fé. A razão porque respiro é por causa da minha fé.
Sobrevivi os meus anos, com e sem Elvis por causa da minha fé. Há
uma canção excelente de Russ Taff, intitulada I Still Believe.
Ele diz, "Estive preso numa gruta durante quarenta noites e mais
nada senão uma chama para me orientar no caminho. Hei-de subir
aquela montanha, de joelhos se for preciso. Continuarei a viver e a
avançar, ainda tenho fé. Por causa da minha fé incrível e da graça
de Deus que me susteve ao longo do caminho." Será que alguma vez
voltarei a pregar? Sempre que falo da minha vida e de Elvis, estou a
falar-vos do Senhor.

Legendas: Elvis, ao vivo, em
1976. David está de casaco amarelo. Ele era segurança de Elvis.
Muito obrigada, David, pelas suas
respostas sinceras e abertas.
Fonte:
Revista Designer . |