« Regressar

ENTREVISTA COM DAVID STANLEY - 27 DE JUNHO DE 2003

    
Legendas: David Stanley, hoje; Elvis, com David, antes de entrar no avião Lisa Marie (28 de Agosto de 1976); e Elvis com David, em 1971.
 

Entrevistadora: Madeleine Wilson

 

Depois de esclarecer que as canções de Elvis favoritas de David são Jailhouse Rock e Memories, que não gostava de ouvir Elvis a cantar Hey Jude e que acha que os melhores anos de Elvis foram entre 1969 e 1972, a entrevista prossegue do seguinte modo:

 

Você tem dito que um dos problemas com Elvis foi que acima de tudo ele não tinha responsabilidade, não tinha a quem dar satisfações. Acha que ele tinha consciência disso e, em caso afirmativo, que tipo de pessoa pensa que ele aceitaria ter a quem dar satisfações?

Acho que Elvis era esta pessoa protótipo; foi a primeira estrela de rock. Não houve ninguém antes dele. Do ponto de vista profissional era difícil para ele comunicar com alguém que tivesse tido um sucesso semelhante. Tinha havido Frank Sinatra, Dean Martin, mas este miúdo jovem, Elvis, saiu do típico padrão. Não haviam conselhos sólidos que se pudessem dar sobre como ser uma estrela rock. Quanto a ter uma pessoa a quem dar satisfações durante a sua vida, devido ao facto de ser uma super estrela, não só sobre o palco, mas também como pessoa, ele era uma presença tão forte que era difícil dizer-lhe o que tinha de fazer. Eu olhava para ele e fazia-lhe uma sugestão. Agora tenho 47 anos de idade e a forma como estou a responder a estas perguntas seria completamente diferente se fosse naquele tempo. Na altura eu tinha 19/20 anos e ele recordava-me sempre. “Quando tinha a tua idade eu era milionário.” Ele era difícil de abordar por causa do seu sucesso e da sua fama. Sentia-se muito humilde e grato por Deus lhe ter dado aqueles dons incríveis da música, do carisma e da presença, mas não haviam muitas pessoas que se pudessem identificar com ele, de chegar àquele nível e saber o que era ser um ícone. Independentemente de se ser bom ou não, as pessoas amam esse ícone na mesma. Elvis era amado. Todos nós temos coisas na vida das quais não nos orgulhamos. Todos nós já nos sentámos e dissemos, “Como é que alguém pode realmente gostar de mim?”, incluindo Elvis. As pessoas amavam-no mesmo. Mas ele não conseguia compreender isso. Então era difícil falar sobre esse tipo de coisa, permitir que alguém o aconselhasse. Na minha opinião.

 

Então você não acha que ele procurava ter qualquer tipo de responsabilidade?

Elvis costumava falar com pregadores. Encontrava-se com Rex Humbard e Oral Roberts, pessoas assim. Elvis tinha uma fé imensa que lhe foi passada pela sua mãe. Mas era do tipo, “Quem é que pode entender de onde venho?”. Isso faz algum sentido? É como se eu fizesse esta entrevista num nível mais baixo. Podemos falar sobre Elvis, mas quem é que pode realmente entender o que era, estar naquele turbilhão com Elvis Presley?

 

Deus pode.

Claro. Quando digo responsabilidade, quero dizer que realmente ninguém lhe podia dizer o que fazer. Ele tinha as suas próprias ideias. Acho que a consciência de Elvis acabou por lhe pregar uma partida. O mundo amava-o tanto, mas havia coisas nele que ele mesmo não gostava assim tanto. Algumas pessoas chamam-lhe pecado, outras chamam-lhe convicção. Às vezes damos por nós próprios a afastarmo-nos das coisas que sabemos que é suposto fazermos e não fazemos. Acho que foi a combinação de tudo isso que levou Elvis a ultrapassar o limite, a cair. Mais ainda, Elvis tinha de se sentar e ser Elvis. As pessoas perguntam o que era mais difícil na vida de Elvis. Eu acho que era ser Elvis Presley. Ele não podia ser uma pessoa. Não havia ali ninguém a quem dar satisfações. Ele não podia comunicar os seus sentimentos porque as pessoas esperam que esta super estrela tivesse uma super vida e andasse sempre super feliz. E isso acabou por ser demais para ele. 29 anos a estar no topo, para onde se vai depois de se ter sido Elvis?

 

Dizem que estar no topo é difícil.

E é também solitário.

 

Outro ponto que você já sublinhou é que Elvis tinha medo de não dar aos seus fãs o que eles queriam. Acha que foi este medo que evitou que ele desse concertos só de música gospel?

Não. Elvis cantava música gospel, mas que eu saiba isso nem sequer nunca foi discutido. Nunca ouvi falar de se fazer um concerto de Elvis só de gospel. Teria sido fantástico. Ele adorava gospel, era capaz de se sentar uma noite inteira a cantar com JD e os Stamps e os Imperials. E também ia a convenções de gospel. Se ele ainda estivesse vivo, penso que teria feito algo do género. Elvis sabia quais eram as suas origens. Sempre se sentiu humilde e muito grato pelos seus dons. Ele disse ao meu irmão Ricky, “Todos nós temos uma vocação, e a minha vocação é ser cantor de gospel.” Ele disse isso ao meu irmão, lembro-me bem. E Elvis disse, “E eu pura e simplesmente deixei passar a minha vocação. O mundo não me deixa ser o que Deus me destinou ser.”

 

Isso leva à minha questão seguinte. Elvis fez esta pergunta muitas vezes, porque motivo Deus lhe deu aquele dom de ter uma voz maravilhosa e um magnetismo pessoal. Reflectindo sobre este assunto, tem alguma resposta para esta pergunta?

Vamos falar da sua música gospel. Olhe para a inspiração da música gospel, olhe para os prémios Grammy. As mensagens de gospel eram ilustradas na estrutura daquela música. Elvis nunca colocou uma mensagem numa canção que fosse destrutiva. E era por isso que ele não gostava dos Beatles. Ele não gostava quando alguém falava de drogas ou fosse contra o sistema. Ou que deitasse abaixo a família. Era muito conservador nas suas perspectivas e acho que a sua vocação foi preenchida porque ele fez mesmo aquilo para o que Deus o destinou, todos aqueles discos ainda andam por aí e quando se fala de Elvis, toda a gente fala do gospel, das raízes da sua vida. Eu acho que ele preencheu a sua vocação e ainda mais.

 

Legendas: Vernon Presley, com Elvis e a sua segunda esposa, Dee Stanley; os rapazes Stanley com Lisa Marie Presley, quando ela nasceu.

 

Alguma vez falou sobre assuntos espirituais e cristãos com Elvis e, em caso afirmativo, o que acha que era o que mais o interessava sobre o Gospel? E sobre o que mais ele se interrogava?

Elvis leu imensos livros. A Vida Impessoal, O Manto de Turim, livros sem fim, mas acabava sempre por recorrer à Bíblia. Durante os 26 anos que se seguiram à sua morte, também eu tenho feito algumas viagens pessoais. Durante todos os altos e baixos da minha vida, a coisa que permanece mais sólida é a minha fé em Deus e o meu amor por Cristo. Não importa se estou bem ou mal, se sou bom ou mau rapaz, se estou cheio de pecado ou de graça, ainda me concentro sobre o meu relacionamento com Deus, o criador e Cristo, o Salvador. Isso também lhe foi incutido a ele. Elvis teve adversidades sobre adversidades sobre adversidades. Eu sentava-me na sua cama e via-o a abrir aquela Bíblia e a chorar, “Deus, dá-me forças!” Um dia estava a tomar uma mão-cheia de comprimidos, no outro estava a rezar para pedir perdão. Todos nós somos assim. Uma coisa que as pessoas precisam de entender acerca de Elvis é que ninguém, nem mesmo aquele rei, é perfeito. Só houve um rei e Elvis reconhecia isso. A canção Why Me Lord resume isso muito bem. “Porque sou esta estrela tão grande? Deus, não sou bom, sou capaz de me auto-destruir, de me rebelar e todo o tipo de coisas que não recaem na estrutura das coisas que queres que eu faça. Apesar de tudo isto, porque é que me escolheste a mim?” Essa era a vida de Elvis Presley. Ele era um Rei Salomão moderno. Se Elvis tivesse vivido nos tempos bíblicos, provavelmente teriam escrito um livro sobre ele porque ele foi um rei moderno. Consegue imaginar-se a viver com isso? É quase impossível.

 

Um fardo pesado.

Um fardo muito pesado. Estou aqui a falar consigo em Liverpool, 26 anos depois de Elvis ter morrido. Que me diz disto? O impacto que este homem teve sobre a sociedade que, 26 anos depois, ainda estamos a falar dele e sobre a sua fé. Sobre o que ele fez e como o fez. Ele foi um rei moderno. Se alguém perguntar, “O que matou Elvis?” Foi ser um rei moderno. Esqueçam Elvis, imaginem-se apenas a ser aquela pessoa. É um caminho duro! Olhem para todos os reis, as adversidades do rei David, rei Salomão. Elvis não foi diferente.

 

É bem conhecido que Elvis tinha um enorme sentido de humor e que o Elvis sorumbático muitas vezes ilustrado era de longe apagado pelo Elvis divertido e amoroso. Qual é a sua recordação favorita de se divertir com Elvis?

A maior diversão que tinha era quando Elvis estava a brincar; quer fosse guerras de fogos-de-artifício, carrinhos de corrida ou futebol. As pessoas falam da pobre e triste estrela de rock, Elvis Presley. Não foi assim tão mau. Elvis divertia-se. Tínhamos férias divertidas, Natais maravilhosos. E pregávamos partidas. Elvis dizia, “Se deixar de ser divertido, desiste, se não te conseguires rir, vai-te embora para casa.” E Vernon também era assim. Elvis herdou essa faceta do pai. A maior diversão que tive com Elvis foi quando estava com ele bem disposto. Quando ele estava mal disposto, não era divertido, mas todos nós ficamos mal dispostos de vez em quando. E quando Elvis brincava, brincava à bruta. Era um miúdo crescido. Olhávamos para aquele homem de 39/40 anos a portar-se com um miúdo de 12. Os meus filhos olham para mim e dizem, “Pai, portas-te como um miúdo.” E eu digo, “Obrigado.” Quero manter isso, a minha juventude, a minha alegria e a minha felicidade. No final da vida de Elvis, já não era nada divertido. E quando pensamos no que ele costumava dizer, “Quando deixar de ser divertido, desiste.” Faz-nos pensar que ele se limitou a desistir. Como crente, Elvis sabia que a vida era efémera. E que era tempo de ir embora, para casa. Agora está a divertir-se mais do que qualquer um de nós!

 

Você tem dito que Elvis foi tanto uma figura fraterna para si, como também paterna, mas que a figura paternal foi mais forte. Isso foi porque você perdeu contacto com o seu próprio pai e continuou a ter os seus irmãos por perto?

Boa avaliação. Foi exactamente isso. O meu pai foi-me tirado da vida. Vernon amava-nos, mas o seu filho era Elvis. Sempre tive um bom relacionamento com Vernon, o meu padrasto. Ele criou-me e deu-me um tecto, levou-me à escola. Fez tudo o que um pai deve fazer. Porque perdi a minha identidade, crescer nesta vida surrealista e protegida com Elvis, a única coisa de que me conseguia aperceber era de Billy, Ricky e Elvis. Billy e Ricky eram da minha idade, eram os meus verdadeiros irmãos, Elvis era a figura paternal. Era ele que me dava uma palmada nas costas e eu sabia que tudo ia ficar bem. Quando alguém se metia com a família dele, ele ia logo para a frente da batalha para a defender. Estava sempre ali, para nos proteger. E era o mesmo comigo em relação a ele, ninguém podia fazer-lhe mal comigo a ver. Ninguém o podia magoar, tocar-lhe, bater-lhe ou fazer algo de mau quando eu estava por perto. Ele não era o meu pai biológico, mas tratava Elvis por pai. Isso não quer dizer que eu vá deixar crescer patilhas e vá andar com uma bengala. Mas ele foi uma pessoa que influenciou muito a minha vida, que me ensinou o que era bom e o que era mau. E tem-me levado muitos anos a absorver tudo isso. Ele continuará sempre a ser a força dominante na minha vida, a minha figura paternal de Elvis Presley, e o meu pai verdadeiro. Tal como Elvis me dizia, “Ama sempre o teu Pai, sente-te orgulhoso da sua herança como combatente veterano, uma pessoa que esteve disposta a dar a sua vida pelo seu país.” O maior elogio que Elvis me deu foi quando disse, “És tal e qual o teu pai.” E sou bastante parecido com o meu pai biológico, mas Elvis era o Papá e eu amava-o.

 

É bastante claro pelas coisas que já escreveu que realmente sente saudades de Elvis. Depois de todos estes anos ainda sente a dor. Como cristão, acha que será capaz de chorar e, tal como a Bíblia diz, será que o seu luto se converterá em dança enquanto estiver a viver nesta terra?

Eu não ando realmente enlutado, porque sou um crente. Eu voltarei a ver Elvis. Há alturas em que fico triste, como é natural. Provavelmente esta noite quando for para o meu quarto e me deitar, tudo isto começará a crescer dentro de mim. Sabe? As pessoas não deixam Elvis morrer. Nunca terei uma sensação de término porque Elvis estará sempre presente. Sinto saudades dele, mas não desejo que ele ainda cá estivesse. Isso seria egoísta e acho que Elvis está no céu, a afinar o coro, ou lá o que quer que seja que está a fazer.

 

A divertir-se.

Sim, ou o que quer que seja de bom e maravilhoso que Deus nos promete. Fico triste. É como Elvis disse, “Não é que as pessoas não gostem de mim, apenas sou mal entendido.” Não importa quantas entrevistas eu dê e com quantas pessoas eu fale, as pessoas nunca compreendem a simplicidade deste homem muito humilde e temente a Deus. Ele era muito simples. Ele era capaz de fazer esta entrevista consigo; achá-la-ia a si muito desarmante e carinhosa e bastante qualificada nas perguntas que faz. Apreciaria o processo e você acharia que este ícone está para além de qualquer recriminação, mas ele falava com qualquer pessoa. E quando penso nisso e em como ele se preocupava com as pessoas e o tipo de pessoa que foi, sinto saudades dele, mas do que sinto mais falta é das pessoas não se aperceberem de nada disso. De quem ele realmente era.

 

Você quer esclarecer as coisas para que as pessoas o entendam?

Sim, exactamente. Quando pensarem em Elvis, não sejam tão complexos. Ele era apenas um de nós. Só que ganhou imenso dinheiro! E tinha um dom tremendo.

 

Se pudesse falar com Elvis agora, o que lhe diria?

Meu Deus. Se tenho um desejo na vida, seria poder comunicar com Elvis com a idade que tenho agora. Todas as adversidades pelas quais tenho passado, desde que ele morreu, e poder comunicar com ele, de homem para homem e não de miúdo para estrela do rock ou de miúdo para homem, mas de homem para homem. Provavelmente diria a Elvis que o amo, que é amado e como lhe agradeço que ele tenha aceite este miúdo de 4 anos, quando nem sequer tinha de o fazer. Dee (a mãe de David) entrou na sua vida quando a sua mãe tinha morrido apenas há um ano e meio. E isso é duro. Ele gostava da minha mãe e amava-nos a nós, três rapazes. Quando entrei em Graceland, ele abraçou-me e deu-me as boas vindas e deu-me todos aqueles anos. As pessoas dizem tantas coisas. "David, porque não o salvaste, porque não fizeste istou ou aquilo?" Mas até vós mesmos poderem estar nessa situação, não critiquem nem abusem até poderem estar na pele da pessoa que interrogam. O meu legado fala por si mesmo. As pessoas podem dizer o que querem, mas Elvis confiava em mim e eu confiava nele. Perdi um amigo e um irmão naquele dia. Se pudesse dizer algo provavelmente diria "Obrigado". E lamento uma data de outras coisas porque é difícil ser o guardião de um legado. Não pedi esta posição, fui atirado para dentro dela. Fiz o melhor que pude ao longo do caminho. A parte mais difícil sobre a morte é as pessoas que ficam para trás.

 

Mas Deus dá-lhe a força.

Certo.

 

E um dia voltará a vê-lo.

Sim, essa é a boa parte da história.

 

Vai alguma vez regressar às pregações?

Passei do rock and roll para o evangelismo, caí, desmanchei-me e queimei-me. Nunca lidei realmente com as ideologias negativas que foram instigadas na minha vida como parte do mundo do rock and roll. Mas a minha vida gira em torno da graça de Deus. Duvido que alguma vez volte (a pregar). Mas vou dizer isto. Não sinto vergonha da palavra de Cristo. E para onde quer que vá como orador, um orador que coopera, faço questão de dizer sempre que tenho fé. A razão porque respiro é por causa da minha fé. Sobrevivi os meus anos, com e sem Elvis por causa da minha fé. Há uma canção excelente de Russ Taff, intitulada I Still Believe. Ele diz, "Estive preso numa gruta durante quarenta noites e mais nada senão uma chama para me orientar no caminho. Hei-de subir aquela montanha, de joelhos se for preciso. Continuarei a viver e a avançar, ainda tenho fé. Por causa da minha fé incrível e da graça de Deus que me susteve ao longo do caminho." Será que alguma vez voltarei a pregar? Sempre que falo da minha vida e de Elvis, estou a falar-vos do Senhor.

 

Legendas: Elvis, ao vivo, em 1976. David está de casaco amarelo. Ele era segurança de Elvis.

 

Muito obrigada, David, pelas suas respostas sinceras e abertas.

 

Fonte: Revista Designer .

« Regressar

hit tracker