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Festival Semanal de Elvis na
Inglaterra
(Festival
organizado pelo Official Elvis Presley Fan Club of Great Britain and The
Commonwealth)
Célia Carvalho, Outubro de 1993
celiamcarvalho@gmail.com

Foram
9 dias de sonho. Será que aconteceu mesmo...? Ah... Podem crer que
aconteceu! Temos 5 horas de filmagens e à volta de 150 fotografias que
provam que sim - que aconteceu e que FOI um sonho... de realidade!
Dia 22 de Outubro de 1993. Meu Deus, o que ansiei por este dia! Era tudo
super excitante: andar de avião pela primeira vez, ir a Londres pela
primeira vez, conhecer a minha adorada correspondente (a Jeane) e ir a
Hemsby também pela primeira vez. Era demais para acreditar! Mas lá fomos
nós os 4, com coragem e alegria. Andar de avião foi o máximo (quero
mais!) e correu tudo às mil maravilhas. Mal saímos do Aeroporto de
Heathrow, vi logo a Jeane e caímos nos braços uma da outra!
Apresentei-lhe o Paulo, a Ana e a Isabel e foi ali que nos separámos. Eu
e Isabel íamos com a Jeane para Londres e eles iam com o Robert. Foi óptimo
estar em Londres, mas a excitação que nos dominava era devida à
curiosidade de Hemsby. Como seria?

Dia 23 de Outubro - um dia que jamais hei-de esquecer. Ao meio-dia
despedimo-nos da Jeane e apanhámos o comboio para Norwich. Duas horas
depois saímos e apanhámos o segundo comboio para Great Yarmouth. Foi aí
que comecei a olhar à minha volta com mais atenção. Eu tinha a certeza
que a maioria daquelas pessoas ia para Hemsby - só podia! Poupas,
patilhas, t-shirts com Elvis, a voz dele a cantar I Was The One num
gravador e uma mulher a exclamar por detrás, “Oh, esta é a minha
preferida!“ Chegámos a Great Yarmouth e a Isabel pronunciou em voz alta
a pergunta que eu tinha formado no meu cérebro: “Será que temos de
andar muito até encontrar a camioneta do Clube para Hemsby?“ Quase nem
precisava de ter perguntado. Olhámos e vimos. Uma camioneta enorme com um
cartaz que dizia “ELVIS PRESLEY FAN CLUB - ON TOUR“. Que sensação
maravilhosa! E era verdade - todos os nossos companheiros de viagem iam
para o mesmo destino. Todos se ajudavam a arrumar as malas e o ambiente
era tão familiar que me senti em casa e super descontraída. Afinal,
TODOS os que ali estavam eram fãs de Elvis, só podiam ser amigos!
A viagem de camioneta foi agradável (se esquecermos o “pequeno“
pormenor de andar do lado errado da estrada!), pois pudémos observar a
bonita paisagem verde. Muitos rebanhos, manadas de vacas pretas e brancas
e cavalos. E as casas eram lindas! Todas de tijolinho verde, vermelho,
amarelo ou castanho - um regalo para a vista. Eu e a Isabel não nos calámos
um segundo. Às tantas, uma das senhoras que ia à frente disse para a
outra: “Mas que raio de língua será a que elas falam? Não é francês.
Só oiço nh-nh-nh-nh... nhã-nhã-nhã-nhã...!” Ri-me tanto. No final
da viagem disse-lhe de onde éramos.
15.30 - Chegámos! Primeira impressão - agradável e excitante. Toda a
gente se ria, ajudava e cumprimentava entre si. Alguns já se conhecem de
longa data, pois vão praticamente todos os anos. Depois de recolher a
bagagem, fomos para a fila da recepção buscar a chave do nosso chalet.
Foi aí que reparei em dois rapazes (que estavam atrás de nós) que
falavam sobre o número de reserva do chalet deles. O nosso era o 200, o
deles era o 69! Ouvi a conversa, olhei para trás e ri-me. Eles também
riram. Na recepção deram-nos a chave (o Paulo e a Ana ainda não tinham
chegado), os programas com as actividades e os nossos bilhetes para jogar
no Bingo.
Fomos logo para casa fazer o “reconhecimento“ do lugar. Vimos logo
como é que funcionava a máquina de electricidade e pusémos uma moeda de
50p. Liguei logo a televisão, mas só vi uma data de “parvos“ a fazer
palhaçadas e voltei a desligar. Escolhemos um quarto para nós (vantagens
de chegar primeiro!) e desfizémos as malas. Quando fui à casa-de-banho,
dei um grito. A Isabel veio a correr. “O que é que foi?“ Nem consegui
falar. Só apontei. A banheira não tinha chuveiro! (Já que falo em
“ausências“, a sanita também não tinha tampa e uma vez a Isabel
deixou cair um rolo de papel higiénico lá dentro! Era do Robert, mas foi
sem querer, claro!). Saí da casa-de-banho e vi uma tomada eléctrica
mesmo à saída. Óptimo! Uma figa... tinha 3 buracos! Todas tinham 3
buracos... Para quê trazer o secador E
a câmera de vídeo? Oh, que desgraça!
Depois disso tivemos de sair para espairecer um bocadinho. “Vamos
telefonar às nossas mães,” sugeri. E lá fomos todas contentes, com o
nosso credifone prontinho. Acreditam numa coisa destas? Comprámos o
credifone em Londres para telefonar e ali não havia uma única cabine
para credifone - só para moedas! Também não havia selos à venda. Que
chatice!
Decidimos ir descansar um bocadinho para casa e esperar pacientemente pelo
Paulo e pela Ana. Por volta das 10 horas da noite a Isabel começou a
ficar preocupada. Disse-lhe que não valia a pena, que o Robert (o
correspondente da Ana) era a lentidão em pessoa e que se perdia muito
facilmente. Foi por isso que fiquei tão feliz por não ir com eles! Então
fomos para a cama e comecei a ler a introdução do programa em voz alta,
escrita por Todd Slaughter. A dado momento dizia, “Sei que muitos de vocês
viajaram de muito longe para participar neste acontecimento anual entre os
fãs” e “Muitos fãs vêm ao nosso festival pela primeira vez e eu sei
o choque cultural que devem estar a experimentar, talvez mesmo agora.”
Tive de me rir! Estava mesmo a falar connosco! “Mas fiquem descansados
que somos todos inofensivos - e a nossa equipa está sempre à mão para
vos ajudar.” E isto era uma grande verdade, como já vão ver.
Adormecemos por volta da meia-noite e acordámos às 2 horas da manhã com
alguém às “cacetadas” à porta. “Já chegaram!” gritou a Isabel.
Ela foi abrir-lhes a porta. Ainda no dia anterior nos tínhamos visto, mas
parecia que já não os via há séculos! Explicaram o motivo do atraso -
Robert. Seja como for, fomos logo para a cama.
E foi a partir daqui que a nossa semana de Elvis começou a sério! Já
vos disse que perdi a noção do tempo? Não é difícil, pois não existe
outro ponto de referência que não seja ligado a Elvis. Por isso, às
vezes me é difícil acreditar que aquilo aconteceu mesmo! A dado momento,
perguntei, “Hoje é Terça ou Quarta?” Ninguém sabia! “Digam-me que
é Terça, por favor!” E era mesmo! Fiquei tão contente.
A primeira vez que fui ao Tupelo Shopping Mall, vinha derreada para trás
com o peso. Afinal, trouxe à volta de 15 kg de livros, discos e vídeos
de Elvis...! A primeira vez que fui à Tennessee Kitchen com a Isabel e
pedi arroz com batatas fritas para acompanhar o frango, a senhora (que era
uma simpatia) olhou para mim como se eu fosse um extra-terrestre. “Chips
and... rice?” perguntou ela. Claro, ora essa! Parece que é uma combinação
esquisitíssima em Inglaterra. Eu e a Isabel ficámos conhecidas na
cantina por “Rice Girls”! A primeira vez que fui assistir a um
concurso de karaoke, ri-me como uma perdida! Meu Deus... aquela gente é
demais! “Aquela gente” é a “nossa gente”, pois são os fãs de
Elvis. São maravilhosos. A primeira vez que fui à discoteca, fiquei
parva. Era no Memphis Ballroom, onde havia um écrã gigante sempre
adequadamente “enfeitado” com o nosso Elvis a cantar e a dançar para
nós e connosco! Era como se ele estivesse mesmo lá, o que foi
absolutamente espantoso. Senti mesmo a presença dele durante toda a hora,
à minha volta.
E as coreografias para as canções? Santo Deus! Eu não queria
acreditar... Nem o Peter e o Eddie (os rapazes da recepção,
lembram-se?). Também era a primeira vez que eles iam. Frankfurt Special e
Drums Of The Islands são dançadas em “comboio” pela pista fora - e não
só! O pessoal sai da discoteca, vai pelo Elvis Presley Boulevard a fora e
volta a entrar pela outra porta! I Can Help abria sempre a discoteca e é
palmas do princípio ao fim. Só no último dia é que aprendi a dançar
essa bem! You Asked Me To é dançada no chão! O pessoal senta-se todo no
chão (como os putos fazem na praia para ir para o banho) e bate palmas e
dança. American Trilogy encerrava a discoteca. Tudo de mãos dadas,
bandeiras no meio e pulmões a cantar com toda a sua força!
“Give
me an E!” (Dêem-me
um E!) gritava Gary Baines, o nosso disc-jockey, e nós berrávamos
“E!”“, “Give me a L!” E por aí fora, até completar. “Who’s
the greatest of all time?” (Quem
é o melhor de sempre?) “ELVIS!!!” E no final, “Aloha!” Como vim
rouquinha... mas que alegria! E dançar gospel? Oh, minha gente, se antes
já gostava de gospel, agora ADORO! Working
On The Building e So High são demais!
De toda a gente que conheci, não me deparei com ninguém desagradável ou
antipático. Eram todos tão simpáticos que até custava a crer. O
pessoal só se quer divertir e gozar a sua maluquice comum - Elvis. Nunca
vi ninguém fazer figura de parvo ou portar-se mal. E éramos à volta de
1.500!
O primeiro grupo que vi actuar foram os Mondo Carne e foi o que mais
gostei (sem contar com o Scotty e o D.J.!) O cantor chamava-se Jenson
Bloomer, era muito novo e tinha um sorriso super simpático. E tinha VOZ
ou quê?! O que mais apreciei foi a sua forma pessoal e original de
interpretar as canções de Elvis. Por não o imitar é que tornava tudo tão
mais excitante! Cantei como uma doida durante este concerto.
Entretanto, estávamos com um grande problema. Era a ficha para a câmera
de vídeo. Só de pensar que não íamos filmar o Festival, só tínhamos
vontade de chorar. Mas nessa noite, estávamos na discoteca e a Ana viu o
John Coventry à entrada - um dos elementos da organização e que
apresentava os programas na TVE. Fomos ter com ele, apresentámo-nos e eu
tentei explicar o nosso problema. Nunca vi este homem sem estar a sorrir!
Ele ficou muito contente por nos conhecer, porque éramos os primeiros
portugueses a participar no Festival de Hemsby. Pediu-nos para aparecer na
TVE às 9 horas da manhã e prometeu ajudar-nos com a ficha. Não só
explicou o problema a Bob Bacon (engenheiro de som) que nos DEU uma ficha
tripla, como nos teve ao vivo, na TVE, a falar com toda a gente. Não me
importei muito porque pensei, “Que se lixe! Estão todos a dormir a essa
hora, por isso, não me importo!” Por isso, lá fomos nós para a TVE. Só
então é que eu vi que o operador de câmera era Jenson Bloomer (dos
Mondo Carne), o da voz poderosa e bonita! Vou contar como foi.
John: Pela primeira
vez temos portugueses no nosso Festival anual. Vamos recebê-los com um
caloroso aplauso!
Fomos para junto dele, por detrás da secretária (tinha uma perna mais
curta do que a outra e não parava de abanar!) adequadamente forrada com
posters de Elvis, bem como as paredes.
John: Então, quem
é que fala melhor inglês?
Não pude acreditar! Eles os 3 apontaram os dedos para mim todos ao mesmo
tempo! Eles é que tiveram a ideia, mas EU é que tive de falar!
John: Como te
chamas?
Eu: Célia.
John: Então, conta
lá, Célia, como vieram até aqui?
Ana: De avião!
Gargalhadas.
Eu: De avião, claro, nós
já há mais de um ano que estávamos a planear esta
viagem. Estávamos muito ansiosos por vir, é a primeira vez que estamos
na Inglaterra e estamos a adorar tudo, especialmente o Festival. E acho
que apanhámos o bichinho, pois queremos voltar.
John: Fantástico!
Deixa-me que te diga que falas
melhor inglês do que qualquer outra pessoa que já veio aqui aos estúdios.
Mais
gargalhadas.
John: Há quanto
tempo são membros do Clube?
Eu: Do
Clube Inglês?
John: Sim.
Eu: É
diferente. A Ana foi a primeira a entrar há 6 anos. Eu pertenço há 4.
John: Óptimo. E em
Portugal também há convenções e discotecas de Elvis?
Eu: Não,
infelizmente.
John: Acho que o próximo
Festival devia ser em Lisboa ou no Porto.
Eu: Seria
óptimo.
John: Direitinhos
de Portugal, minha gente. Isto só prova que o nome de Elvis Presley é
realmente adorado em todo o mundo.
Depois
a Ana
avançou e deu
ao John
alguns souvenirs da nossa
cidade
(Almada).
Ana: O
Presidente da nossa câmara quis que nós vos déssemos isto.
John: Que simpático
da vossa parte! O que é?
Tínhamos
postais com paisagens de Almada e Cova da Piedade, um
galhardete (como não podia deixar de ser) e canetas.
John: Tenta captar
as bonitas cores dos postais. São mesmo lindos! Ei, isto é demais!
Nunca tivémos coisas com tanta classe na TVE antes!
Gargalhadas.
A Ana disse que tínhamos mais coisas para dar a D.J. e a Scotty. Eles
aplaudiram todos, gritaram e disseram-nos adeus, desejando-nos uma óptima
estadia. Ia ser de certeza! Já tínhamos a ficha tripla que o Bob nos
deu. Só estávamos tristes por não termos gravado a nossa presença na
TVE, mas depressa se resolveu este problema. Se não fosse Mick Haywood,
um correspondente da Ana que estava presente em Hemsby, nunca tínhamos
visto aquelas imagens. O Mick Haywood tínha-nos convidado para ver
algumas filmanges de concertos pirata no vídeo do seu chalet e, em
conversa, disse-nos que tinha gravado a nossa presença na TVE. O Paulo
pediu-lhe para ele passar as imagens no vídeo e filmou a televisão com a
câmera dele. Houve uma parte num dos concertos em que Elvis deu ênfase
à letra da canção movendo as mãos. Sempre achei que ele tinha umas mãos
muito expressivas. Mick olhou para Elvis e disse, “Ninguém podia fazer
aquilo como ele, pois não?” Nós concordámos, claro. Saímos dali
direitinhos para ver o concurso de imitadores dos anos 70.
Logo no primeiro dia vi um homem bastante atraente, vestido como Elvis nos
anos 70. Calças pretas, camisa preta e branca com mangas largas e
colarinho levantado, óculos de sol iguais aos de Elvis, um cinto de
correntes e uma bengala. Caramba - tinha um ar imponente! O cabelo dele não
estava pintado de preto, embora tivesse patilhas. Mas o cabelo era
igualzinho ao de Elvis, e via-se que ele não fazia nada para isso - era
natural. Pensei logo que queria uma fotografia com ele, por isso fui ter
com ele. “Desculpa...” “Yes, honey?” Como ele olhou para baixo e
mexeu a cabeça, tal como Elvis. O mais estranho é que ele não fazia
nenhum esforço. “Posso tirar uma fotografia contigo?” “Claro,
onde?” “No Elvis Presley Boulevard.” “Okay”. E lá fomos nós.
“Como te chamas?” perguntei. “Neil.” “Tens um aspecto óptimo,
Neal.” “Obrigado.” Tinha um aspecto óptimo e também era simpático.
Só rezei para que ele participasse no concurso de imitadores. Claro que
participou e ganhou porque foi o melhor. Levou um fato igual a um que
Elvis usou no That’s The Way It Is
e “cantou” Suspicious Minds, Polk Salad Annie e Patch It Up.
Na discoteca, nessa noite, enquanto olhava para aquele mar de gente a dançar
I Can Help (no início NÃO dançámos!) disse ao Peter, “Não consigo
deixar de pensar no que Elvis pensaria se visse isto.” Ele olhou para
mim, depois percorreu o Memphis Ballroom inteiro, deu uma olhadela ao écrã
gigante e olhou para mim, “Eu acho que ele sabe.” Depois voltou a
olhar para as pessoas, “O que é que achas que Elvis ia pensar? Não
achas que ele ia adorar?” Sorrimos e acenámos.
Senti-me um pouco comovida e, como se isso não bastasse, começou a dar
Hurt do álbum In Concert (1977) com Elvis a cantar ao mesmo tempo
no écrã. Foi magia. TODA a gente na sala parou de dançar e de cantar e
ficaram todos hipnotizados a olhar para Elvis. Houve uma mulher que subiu
ao palco e fez uma festinha na cara de Elvis, o que achei ser tão fofinho...
Quando ele acabou, toda a gente aplaudiu e gritou e o disc-jockey disse,
“E é assim, senhoras e senhores, o Rei!” Foi um dos momentos mais
comoventes que lá experimentei. O Peter também estava emocionado e sentámo-nos
nos degraus depois disto. Disse-me, “Nunca consegui ver este espectáculo
inteiro...” “Porquê?” “Porque não sou capaz...” “É porque
ele tem aquele aspecto ou é porque sabes que ele vai morrer?” Pensou um
bocadinho e disse: “As duas coisas. E tu?” “Bem, eu já vi o
concerto. E só te posso dizer que depois passei a gostar mais dele e a
admirá-lo ainda mais. Às vezes até me esqueço que ele vai morrer,
porque canta tão bem. Não achas?” “Oh, claro! Ele tem uma voz fantástica.”
No dia anterior eles passaram o documentário
This Is Elvis na TVE e nós só vimos o final. Quando chegou à parte
de My Way, a Isabel saiu da sala a correr para o quarto. Ainda há bem
poucos minutos tínhamos estado na discoteca, todos de mãos dadas a
cantar American Trilogy. Eu não a segui. “O que é que se passa?”
perguntou o Paulo. “Não te preocupes. Ela só está comovida...”
disse eu. Antes de dormir, perguntei-lhe o que se tinha passado e ela
disse, “Oh pá... nós temo-nos divertido tanto, a dançar, a cantar e
tudo... é quase como se Elvis não tivesse morrido. E é tão triste
apercebermo-nos que ele já não está connosco...” E eu disse à
Isabel, “Mas aí é que está, Isabel. Ele ESTÁ connosco! Não o
sentes? Sinto que onde quer que ele esteja, está a gozar ao máximo por
ver como nos divertimos com a sua música e filmes...” E ela disse,
“Tens razão. Também o sinto, aqui mais do que em qualquer lugar.”
O Peter também concordou quando lhe contei. Ele gosta mesmo de Elvis. Não
tem problemas nenhuns em dizer que Elvis está fofinho ou atraente. Gosto
de ver essa atitude nos homens. O Paulo também é assim. Um dia, eu
estava a ver um dos meus livros de Elvis, virei uma página e nela estava
uma fotografia TÃO linda, que nem consegui falar, mas o Paulo disse, “Tão
querido!” Tenho a certeza que ele não se importa de eu o dizer. “TU
é que foste querido a dizer isso!” disse-lhe eu.
Houve outros grupos a actuar, como o Kevin Stock And The Finbeat (eram
finlandeses) - óptimos; o Wild Bob e os Bearcats, muito bons, pena é só
ter visto duas canções. Só não gostei do Shayne Driscoll And The
Wanderers. Também fizeram versões pessoais de canções de Elvis, mas
completamente falhadas. Também vimos o Steve Halliday, um artista que
percorreu todas as fases da carreira de Elvis, a mudar de roupas e tudo,
durante o seu concerto. Tinha uma boa voz, estava a imitar Elvis, não era
mau, mas preferi os outros.
Na Quarta-Feira à noite voltámos aos estúdios da TVE, desta vez com D.J.
Fontana. Ele é tão simpático! Muito simples, aberto e comunicativo.
Tivemos o privilégio de filmar ao vivo a entrevista que Mike Adams lhe
fez. A dado momento, quando D.J. está a contar uma história sobre Elvis,
pode-se ouvir o meu “Ah!” e Mike a olhar para mim. Sabem porquê? D.J.
estava a contar que tinha comprado uma camisa e Elvis estava no quarto do
hotel. D.J. foi ter com ele e perguntou-lhe se gostava da camisa. Elvis
disse que sim e rasgou-lhe a camisa do peito para fora! Eu não estava a
contar com essa atitude de Elvis, por isso fiz, “Ah!” “Porque é que
fizeste isso?”, perguntou-lhe D.J., e Elvis respondeu, “Porque no dia
tal de Dezembro do ano tal, fizeste-me isto e aquilo. É altura de
retribuir!” D.J. disse que não podia pregar muitas partidas a Elvis
porque ele retribuía sempre, nem que tivesse de esperar 5 anos! Foi aqui
que ele nos deu o seu autógrafo.
Nunca vi Scotty com os fãs uma única vez. D.J. estava sempre connosco, a
mascar a sua pastilha, com o pente no bolso das calças e a mostrar o seu
deslumbrante anel de diamantes em forma de ferradura que Elvis lhe deu nos
anos 50. Vim a saber que Scotty é mais reservado e também mais sensível.
Cada um é como é e não se pode criticar, não é verdade? D.J.
ofereceu-se para ser entrevistado por todos os fãs no Memphis Ballroom e
também filmámos isto. Bons tempos que ali passámos com imensas recordações.
Mas claro que estávamos ansiosos pelo concerto deles na Quinta-Feira e eu
só rezei para que o vocalista fosse Jenson porque gostei tanto dele!
Antes disso, tivemos o concurso de imitadores dos anos 50. O vencedor foi
o que eu mais detestei, não se mexia como Elvis, parecia mais uma
“prostituta” barata num show de strip tease qualquer. A sério! Elvis
nunca se mexeu assim! Mas gostei da atitude dele no fim. Deu o seu prémio
ao rapaz que ficou em terceiro lugar, que tinha para aí uns 14 anos. Foi
de longe melhor do que ele.
Claro que agora já dançávamos todos na discoteca. Acho que dancei mais
nessa semana do que na minha vida toda. Claro que é óptimo apreciar a música
de Elvis sozinha, mas nada se compara àquela gente toda de mãos dadas a
cantar e a dançar juntas. Agora a música de Elvis tem um novo
significado para mim. É mais importante, mais real, melhor. E sempre que
oiço alguma canção, agora tenho uma recordação real com a qual me
posso identificar e isso é maravilhoso. Nós só TÍNHAMOS era de dançar.
Haviam lá vários deficientes em cadeiras-de-rodas e ELES dançavam. E
porque não?
O concerto de D.J. e Scotty foi o momento mais alto da semana! Não pudémos
filmá-lo, era proibido, mas só o facto de ter estado lá, foi como um
sonho. E Jenson foi o vocalista. Fiquei tão feliz quando o vi, que
aplaudi o mais alto que pude. Cantaram duas canções dos anos 50 e Jenson
perguntou, “Não se sentem as pessoas mais sortudas do mundo por estar
aqui esta noite?” “YEAH!” “E adivinhem quem é o sortudo aqui?”,
disse ele, apontando para ele mesmo. Ele estava mesmo a transbordar de
felicidade e cantou como ninguém. Reparei nos olhos cheios de lágrimas
de Scotty logo no início. Com certeza recordou Elvis e o início da
carreira deles. Foi tão estranho e excitante ter estado ali, a ouvir o
som que eu só tinha ouvido em disco! Eu estava sentada no chão, com a
Isabel, o Paulo, a Ana, o Eddie e o Peter. Era o melhor lugar, pois víamos
o palco na perfeição. Bati sempre palmas e cantei com o Jenson e ele
olhou directamente para mim, pelo menos 4 vezes. Enquanto cantava One
Night, ele olhou para mim e sorriu. Sorri-lhe de volta e o Paulo gritou,
“Célia, ele está a olhar para ti!” Não consegui deixar de pensar no
que eu faria se ele fosse Elvis! Foi um concerto de arrasar!
Quando chegou Sexta-Feira de manhã, não podia acreditar que a semana
estava a acabar. Podia continuar assim indefinidamente! Quando os rapazes
me deram as moradas deles, disse ao Peter, “Sabes, sempre pensei que
estivesse farta no final da semana, mas não estou!” “Claro que não!
Queres mais e mais e mais!” gritou ele. “Vamos pedir um empréstimo ao
banco ou algo parecido e vamos para Memphis amanhã,” disse ele. Ri-me e
disse, “Não é lá muito boa ideia. Havemos de lá ir todos um dia.
Vens para o ano que vem?” “Claro. Já cá estou!” “E eu também!”
Ele já me escreveu e o Eddie também.
Depois do karaoke de Sexta-Feira, fomos para casa fazer as malas antes do
jantar. Não queria acreditar que me ia embora no dia seguinte. Eu queria
mais e mais, como o Peter disse. Nessa noite vesti-me toda de preto.
Quando os encontrei na discoteca, também estavam de preto! “Porque é
que estás de preto?” perguntou-me o Peter. “Estás de luto por Elvis?”
Fiz que sim, triste. “Nós também.” Olhei à minha volta e vi Neil
Holland, o vencedor do concurso dos anos 70. Ele TAMBÉM estava vestido de
preto.
O Paulo e a Ana foram para casa por volta da meia-noite. Eu e a Isabel tínhamos
de nos levantar às 6 horas da manhã, mas não queríamos ir... Eu estava
sempre a olhar para o relógio e o Peter tapava-o e dizia-me para não
pensar no amanhã e viver o presente. Segui o conselho dele. Às 2 da manhã,
a música parou e nós começámos a gritar e a bater com os pés.
“Elvis!
Elvis! Elvis!”
E o disc-jockey disse, “Querem mais?” “YEAH!” E ele deu-nos mais.
Dancei até cair numa cadeira. Puseram I’m Coming Home (Vou Para Casa) e
eu nem suportava ouvir Elvis cantar, “Well it´s so very hard to have to
leave the one you love” (é tão difícil teres de deixar quem amas)
porque era como se, ao me ir embora, Elvis ficasse para trás. “Não
quero ir”, disse baixinho. Depois puseram You’ll Never Walk Alone
(Nunca Caminharás Sozinha) e aí comecei a ficar MESMO triste. Os olhos
encheram-se-me de lágrimas e nem me podia mexer. Olhei para eles -
estavam na mesma. Depois começou a dar Frankfurt Special e o Eddie e a
Isabel saltaram para a pista para a cadeia de pessoas a fazer o
“comboio”. O Peter puxou-me, mas eu não queria ir, não estava com
disposição. Acabei por ceder e ainda bem, porque me esqueci
momentaneamente que ia partir. Depois
deu C’mon Everybody e Mean Woman Blues. Depois
destes números de rock, deu um slow, Is It So Strange. Ficámos os 4 a
olhar uns para os outros, sem saber o que fazer, pois tínhamos sempre
passado os slows sem os dançar. A Isabel pediu ao Eddie para dançar e,
é claro, eu fiquei com o Peter. Foi a primeira vez que dancei um slow de
Elvis com alguém e sabem que mais? Gostei! Mas eu estava triste. No final
da canção, começou Good Time Charlie’s Got The Blues (Boa Altura para
o Charlie Ficar Triste). Eram 3 horas da manhã. Tínhamos mesmo de nos
despedir. Que desgraça!
Só dormi duas horas nessa noite. No outro dia, quando vi o Paulo no
aeroporto de Londres, exclamei, “Paulo! És a melhor visão que tive
nesta semana!” É que tudo podia acontecer na viagem de regresso a
Londres no carro do Robert...!
E quando chegámos a Portugal, chovia - nunca choveu em Inglaterra.
Dormimos os 4 na casa da Ana e do Paulo nessa noite. Era 1 da manhã
quando chegámos e julgam que fomos logo dormir? Nada disso! Fomos ver as
nossas filmagens e suspirar de saudades... Acho que já vi aquelas 5 horas
de imagens umas 5 vezes e NÃO me canso. Quero mais! E vou ter mais, pois
para o ano... Hemsby, cá vou eu!
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